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José Salibi Neto: andanças de um voraz aprendiz

De jovem campeão de tênis a guru do mundo corporativo, José Salibi Neto fez da curiosidade de detectar o que está por vir o segredo do sucesso


Paulo César Teixeira
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por bem2030

Nas últimas três décadas, José Salibi Neto, paulistano de 61 anos, se tornou referência no mundo corporativo brasileiro, sobretudo para quem busca conhecimento de ponta na área de gestão. Para alcançar essa posição, em um contexto de transformação contínua, ele elegeu a curiosidade de detectar o que está por vir como a sua principal fonte de desenvolvimento pessoal e profissional. “Quando era criança, a minha disciplina favorita era geografia. Olhava o mapa-múndi e pensava em conhecer pessoas e lugares. Talvez por ser um voraz aprendiz até hoje, tive a sorte de unir trabalho e paixão por toda a vida”, afirma.

Em 1987, ele fundou a HSM (ao lado de Harry Ufer, seu amigo de infância, e Marina de Souza Ufer), empresa pioneira no segmento de educação corporativa no país. “Dizem que a gestão no Brasil é uma antes da HSM e outra depois. Não tenho dúvida de que isso é verdade”, diz Salibi, sem falsa modéstia. Ninguém duvida mesmo que ele tenha influenciado, de modo decisivo, o cenário nacional de negócios. “Por meio da HSM, Salibi expôs nossa comunidade executiva ao que de melhor se fazia mundo afora, e esse choque de realidade provocou mudanças irreversíveis”, destaca Adriana Salles Gomes, diretora editorial das revistas HSM Management e MIT Sloan Review Brasil.

Em uma via de mão dupla, os eventos promovidos pela HSM fora do país fizeram com que as marcas brasileiras ganhassem notoriedade no exterior, acrescenta Adriana, amiga e parceira de projetos profissionais – junto com Salibi, é coautora de O algoritmo da vitória. Lançado em 2020, o livro propõe uma analogia entre o papel dos líderes empresariais e as funções dos técnicos de esportes de alta performance.

Por falar nisso, Salibi se tornou um criador de best-sellers sobre empreendedorismo, administração e liderança em 2018, quando publicou Gestão do amanhã, em parceria com Sandro Magaldi, seu sócio na G2S, empresa criada em 2015 para atuar como advisor de organizações em meio às turbulências da transformação digital. Um verdadeiro fenômeno editorial, Gestão do amanhã já vendeu mais de 60 mil exemplares. Em outubro de 2020, Salibi lançou mais um livro – o quinto em menos de quatro anos –, Estratégias adaptativas, novamente com Magaldi. “É sobre as novas maneiras de se pensar estratégia nesse mundo exponencial”, explica.

Um plebeu no tênis

Com a revolução que causou no universo corporativo, não surpreende que Salibi inclua em sua rede de contatos algumas das personalidades mais ricas do Brasil. Com boa parte dos empresários, a amizade se consolidou em quadras de tênis, um dos esportes favoritos de gente como Jorge Paulo Lemann (um dos mais próximos de Salibi), da Ambev – que chegou a jogar em Wimbledon nos anos 1960. Contudo, não é exagero dizer que o tênis é o fio condutor que transformou a vida de José Salibi Neto

O estímulo veio no berço. O pai, o advogado José Salibi Jr., de origem libanesa, gostava de jogar futebol amador aos fins de semana. A mãe, Norma Vaccaro Salibi, de família italiana, foi mais longe. Considerada um fenômeno do vôlei brasileiro, vestiu a camisa 6 do Clube Alto de Pinheiros, além do uniforme da seleção nacional, tendo sido apontada como a melhor levantadora do país entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1950. Ela sonhava que o filho também brilhasse nas quadras de voleibol, mas não foi o que aconteceu.

Ele até cumpriu, em parte, as expectativas maternas, quando atuou pela seleção paulista infantil de vôlei. No entanto, em 1971, aos 12 anos de idade, ao acompanhar partidas e treinos de um vizinho que praticava tênis em clubes paulistanos. “Ele me deu de presente uma raquete torta, meio quebrada. Foi o suficiente para que eu me apaixonasse”, relembra.

Sempre em boa companhia: com Jack Welch, ex-CEO da General Electric, e Michael Porter, professor na Harvard Business School e referência internacional em gestão

Todavia, tênis é um esporte de elite, que demanda compra de equipamentos e roupas, além de viagens e professor particular – o que não condizia com a condição financeira da família. Portanto, sem recursos para contratar treinador, Salibi aprendeu a se virar sozinho: “Olhando as aulas dos outros, eu me ensinava”. Além disso, treinava com o “amigo paredão” de modo obsessivo. O resultado é que, “meio na marra”, evoluiu rapidamente.

Tanto que poucos rivais resistiam ao saque da mão direita do menino prodígio, o que chamou atenção da Sociedade Harmonia de Tênis, clube mais elitista de São Paulo – além dos melhores atletas, atrai até hoje a nata do PIB brasileiro em suas horas de lazer. Posteriormente, o plebeu foi aceito de braços abertos, como um jovem campeão capaz de motivar e dar exemplo aos demais tenistas que lá atuavam. Inesperadamente, Salibi passou a conviver com figurões como Antônio Ermírio de Moraes, Chiquinho Scarpa e Luis Eulálio de Bueno Vidigal. “Eu vinha de uma família de classe média, que mal conseguia pagar as contas. Foi um upgrade social”, assinala.

Instrutor de celebridades

Graças ao tênis, Salibi também conquistou uma bolsa de estudos para cursar Administração de Empresas na Universidade Estadual da Flórida. “Eu via uma grande quantidade de tenistas profissionais que saíam de universidades norte-americanas. Por isso, botei na cabeça que iria estudar e jogar nos Estados Unidos.”

Assim, desembarcou na Flórida em 1978 com “uma raquetinha, boa vontade e persistência” – como ele mesmo descreve –, além de uma carta de recomendação de Alcides Procópio Junior (filho do tenista e empresário Alcides Procópio) ao técnico da equipe de tênis da universidade. Na carteira, somava parcos US$ 250, dos quais usou US$ 50 para comprar um livro de gramática a fim de aprender inglês. Apesar das dificuldades, passou na prova de seleção e garantiu a bolsa que custeava estudos, moradia e alimentação. “Só não pagava as noitadas”, brinca. Algum tempo depois, conseguiu transferência para concluir a graduação na Moore School of Business da Universidade da Carolina do Sul, à época a segunda melhor escola de gestão do planeta.

De volta ao Brasil, deu clínicas e palestras de gestão para executivos, além de aulas de tênis para pessoas da alta sociedade (em pouco tempo, virou professor de celebridades). O esforço era direcionado a um objetivo: juntar dinheiro para cursar o mestrado em Negócios Internacionais, na Carolina do Sul, a partir de 1981. Mas o melhor estava por vir. Nos Estados Unidos, ao passar um fim de semana na casa de um amigo, bateu uma bolinha na quadra com Ronald Winston, um dos maiores joalheiros do mundo, que se impressionou com a habilidade do brasileiro com a raquete. “Você devia usar esse talento em algum negócio”, disse Winston. “Eu tenho um negócio, só preciso de alguém que patrocine”, respondeu Salibi. Quando saiu da quadra, não precisava mais: a HSM tinha acabado de ganhar o primeiro patrocinador.

Entretanto, a carreira de tenista foi interrompida por uma lesão no joelho, consequência do esforço exagerado para alcançar vitórias e também da falta de um treinador no começo da trajetória esportiva. “Como não tinha orientação para dosar energia, treinava até o limite da exaustão. Hoje, acredito que até tenha sido bom não seguir adiante. Não tenho certeza de que chegaria a ser um dos dez melhores do mundo, como ambicionava, e poderia sofrer enorme frustração”, pondera.

Um guru no Paraguai

A busca de conhecimento fez com que Salibi convivesse com os maiores gurus da área de gestão. Entre eles, Peter Drucker, Jim Collins, Philip Kotler, Ram Charan, William Ury e Michael Porter. Kotler, uma referência no marketing em nível global, dedicou um capítulo inteiro de sua autobiografia ao brasileiro, a quem qualificou como “empresário extraordinário”.

Entre os gurus, nenhum causou mais impacto do que Peter Drucker, a quem Salibi tinha como mentor. Quando o conheceu, em 1991, o pensador que deu status de ciência à administração estava com 81 anos e com esposa doente, fatores que dificultavam viagens de longa distância. Ainda assim, continuava sendo o mais requisitado. Como não tentar trazê-lo para os encontros da HSM no Brasil? Muitas vezes convidado, Drucker educadamente dizia sempre não. Até que Salibi decidiu dar uma última cartada.

Ele sempre fazia questão de mostrar paisagens deslumbrantes do Brasil aos palestrantes estrangeiros que participavam das conferências e dos seminários da HSM. Pegava pelo braço cada um deles e levava para locais turísticos como o Corcovado, as cataratas de Foz de Iguaçu ou alguma praia paradisíaca do Nordeste. “Queria conquistar não só cabeças, mas também corações”, explica. Com isso, não foi difícil convencer dez representantes da nata do conhecimento de gestão a assinarem uma carta endereçada a Drucker, assegurando que, se ele viesse ao Brasil acompanhado de Salibi, não se arrependeria. Lembram da carta ao treinador da equipe de tênis da Universidade do Arizona? Se deu certo uma vez, por que não daria de novo?

“Empresário extraordinário”: Um dos maiores nomes do marketing mundial, Philip Kotler dedicou um capítulo de sua autobiografia a José Salibi Neto

Só depois, com o coração acelerado, tomou coragem para bater à porta da casa de Drucker, nas proximidades de Los Angeles. “Então, quando é o evento?”, perguntou o mestre, assim que ambos se acomodaram no escritório da residência. “Qual evento?”, devolveu Salibi, desnorteado por estar diante de presença tão ilustre. “Você não me convidou para participar de seu evento no Brasil? Quando embarcamos?”, disparou Drucker, à queima-roupa.

Para não perder a viagem, Salibi levou Drucker até as missões jesuítas no Paraguai, surpreendendo-se com o elevado grau de conhecimento do novo amigo sobre a história dos povoados fundados entre os séculos 16 e 18. “Sabia mais do que o guia da excursão”, rememora. Não era casual. Filho de um aristocrata austríaco, o gênio da administração havia crescido em meio a serões de sapiência na casa de Viena, dos quais participavam o economista Joseph Schumpeter (uma das influências no pensamento de Drucker) e Sigmund Freud, o pai da psicanálise, entre outras sumidades. “Não admira que seus conhecimentos fossem muito além da economia, alcançando a psicologia e o estudo de religião, entre tantas outras áreas”, diz Salibi.

A amizade perdurou até a morte de Drucker, em 2005, prestes a completar 96 anos. Em 2006, a revista HSM Management publicou edição especial com artigos e entrevistas sobre a obra do pensador. “Quanto mais passa o tempo, com mais nitidez se vê o impacto das ideias dele não só em termos de gestão, mas em todas as áreas que afetam a humanidade. É dele a visão de que a empresa não é só um lugar para ganhar dinheiro, e sim um organismo social e humano.”

Mulheres fortes

Atualmente, José Salibi Neto é casado com a médica Luciana Mancini Bari, nome destacado da área de psiquiatria, com quem compartilha a quarentena em tempos de pandemia, ao lado de um gato e dois cachorros. Desde cedo, está habituado a conviver com mulheres de forte personalidade. Todavia, não esquece até hoje a bronca que levou da mãe, quando desistiu de uma partida contra Júlio Góes, um dos principais tenistas dos anos 1980, ao ser acometido por uma terrível enxaqueca no terceiro set: “Ela gritava comigo na frente de todo mundo, quando saí da quadra. Fiquei tão envergonhado que prometi a mim mesmo nunca mais desistir de algo na vida”.

Outra mulher marcante na jornada de Salibi é Maria Esther Bueno, a maior tenista brasileira de todos os tempos, com quem conviveu por mais de quatro décadas. O último encontro foi pouco antes de ela falecer, vítima de câncer, em 2018. “Antes que desligassem as máquinas, pediu para conversar comigo”, relata, comovido. Posteriormente, a família fez questão de presenteá-lo com o troféu do US Open de 1964, que Maria Esther ganhou ao superar a adversária Carole Graebner em uma partida que durou apenas 19 minutos.

A mais jovem inspiração feminina é a filha, Cristiana, fruto do casamento anterior, sobre quem Salibi alimentou três sonhos: que estudasse na Carolina do Sul, jogasse tênis e fosse palmeirense. Formada em Cultura Digital e Comunicação pela Universidade Estadual do Arizona, ela retornou há pouco dos Estados Unidos para trabalhar com o pai, em São Paulo. Embora seja adepta da atividade física, prefere fazer ginástica a praticar o tênis. Até aí, tudo bem, mas o que mais dói no coração paterno é que Cristiana torce pelo Flamengo. “Deu tudo errado”, diverte-se Salibi.

A admiração pelo universo feminino, no entanto, se estende ao mundo corporativo. Ele costuma citar como exemplos bem-sucedidos de liderança Chan Kim, da IBM, e Ursula Burns, da Xerox, além de Viviane Senna, do Instituto Ayrton Senna, e Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza. “Governos e empresas deveriam valorizar mais as mulheres, que hoje ocupam entre 25% e 30% das posições. Esse percentual teria que subir ao menos para 50%”, recomenda.

Business da felicidade

Em 2015, José Salibi Neto deu uma guinada de 180 graus na vida ao criar a G2S, empresa que promove palestras, talk shows, mentorias e consultorias para companhias e líderes corporativos. É verdade que orientar pessoas sempre fez parte da natureza de seu trabalho. De certo modo, era algo que já fazia informalmente com os clientes da HSM. Contudo, a mudança drástica se materializou com o afastamento do dia a dia operacional da companhia, da qual não era mais dono há bastante tempo, mas mantinha-se como principal responsável pela produção de conteúdo e eventos. “Nunca fui tão feliz em minha vida. Para dizer a verdade, estou no business da felicidade”, assegura.

Com o advento da Covid-19, dezenas de palestras da G2S foram canceladas, mas Salibi soube se reinventar rapidamente, aderindo ao formato digital. “O pacote virtual foi vendido em cinco dias. As empresas entenderam que a vida tem que continuar”, diz. No mundo novo que se avizinha, após a pandemia, algumas mudanças serão definitivas, se depender dele. “Com a qualidade das plataformas digitais, não existe razão para se perder um turno inteiro com deslocamentos no trânsito. Pessoalmente, nunca mais quero fazer reunião presencial”, conclui.

Publicado na 2ª edição da Revista 20/30. Baixe a versão digital aqui.

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