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A vez dos ecossistemas digitais

Mantras do mercado para 2021, inovação e colaboração estão na base do conceito dos ecossistemas digitais – uma estratégia que ganhará cada vez mais impulso no pós-pandemia


Sandra Modena
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por bem2030

A economia mundial sofreu um dos maiores solavancos da história em 2020. Devido à pandemia, boa parte das empresas fechará o ano com perdas. Mas existem negócios que fugiram à regra. Um exemplo é a Loft, dona de um marketplace que facilita processos de compra, venda e reforma de imóveis em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em janeiro, ainda antes da crise, a Loft recebeu aporte de US$ 175 milhões e ingressou na lista brasileira de unicórnios – startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

A plataforma da Loft utiliza big data para determinar o preço mais justo de venda de um imóvel, de acordo com a média do bairro. Isso dá maior segurança a imobiliárias, corretores e potenciais clientes. Já no caso das reformas, a empresa possui uma rede de parceiros – incluindo escritórios de arquitetura. As obras são sincronizadas, facilitando a logística. Em breve, a Loft entrará no segmento fintech e irá oferecer financiamento imobiliário. Itaú e Cyrela já garantiram presença na nova operação. 

Outro destaque do ano foi a VTEX. A empresa detém uma solução que integra o gerenciamento dos canais de venda físico e online de outras marcas. Embalada por esse sistema, a startup deve fechar o ano com alta de 114% na receita em relação a 2019. Já o portfólio de clientes cresceu 90%. Hoje, a VTEX atende 3 mil marcas de 48 países, incluindo os e-commerces de Samsung e Whirlpool. Em setembro, a startup recebeu aporte de US$ 225 milhões e também se tornou um unicórnio.

A VTEX e a Loft oferecem soluções digitais que geram oportunidades e negócios a clientes finais e a outras empresas. Elas facilitam estratégias de relacionamento e de captação ao atuarem em rede com seus parceiros. Tudo a partir da integração de sistemas baseados em dados e tecnologia. Em linhas gerais, esse é o modelo dos ecossistemas digitais. “Trata-se de uma rede complexa que envolve desde fornecedores e parceiros até o cliente final. O ecossistema leva transformações, melhora o negócio e gera valor aos envolvidos no processo”, explica Caio Ramalho, coordenador do Núcleo de Estudos em Startups, Inovação, Venture Capital e Private Equity da Fundação Getúlio Vargas (FGVnest).

“Trata-se de uma rede complexa que envolve desde fornecedores e parceiros até o cliente final. O ecossistema leva transformações, melhora o negócio e gera valor aos envolvidos no processo.”

Caio Ramalho
———- coordenador do Núcleo de Estudos em Startups da Fundação Getúlio Vargas (FGVnest) ———-

Junte-se a eles

Os ecossistemas representam 2% da economia global e devem movimentar US$ 60 trilhões até 2025, quando alcançarão 30% do PIB mundial. O dado é da consultoria McKinsey. Essa evolução se dará, sobretudo, pela aproximação entre grandes companhias e startups. Um estudo feito pela 100 Open Startups, plataforma internacional que conecta gigantes a negócios disruptivos, revelou que parcerias assim cresceram 20 vezes no Brasil desde 2016, fazendo girar R$ 1 bilhão no período. Os investidores começam a encará-las como sinal de modernização das empresas tradicionais. E isso representa um aumento no valor de mercado.

Em 2019, a fabricante catarinense de motores elétricos WEG criou o Weg Digital Solutions, um ecossistema cuja missão é alinhar a empresa à Indústria 4.0. Desde então, a WEG fez três aquisições: PPI-Multitask (automação industrial), Mvsia (inteligência artificial) e V2COM (telemedição de energia elétrica). A agenda de inovação ajudou a WEG a alcançar uma alta de 88% das suas ações nos três primeiros trimestres de 2020, enquanto a Ibovespa caiu 12%. A Sul-América é outra que aposta na aproximação com startups. Nesse caso, da área médica. A empresa mantém parcerias com startups como Docway e Memed (telemedicina), Psicologia Viva (telepsicologia) e AEVO (gestão de ideias). Foi eleita a seguradora mais inovadora do País em 2020 no prêmio As 100+ Inovadoras no Uso de TI, organizado por It Mídia e PwC.

Do aço ao batom, mais de 1,6 mil companhias brasileiras alinharam colaborações desse tipo ao longo do ano – com pandemia e tudo. A 100 Open Startus criou um ranking para apontar quem se destaca nessa estratégia, e a Natura está em primeiro lugar. Em 2016, a fabricante de cosméticos criou o Natura Startups e, desde então, firmou parceria com 40 negócios inovadores. ArcelorMittal e BMG completam o pódio.

Celeiro de inovações

Ecossistemas encabeçados por grandes companhias são semelhantes a um carrossel: a marca-mãe aparece no centro, dando suporte a uma rede de soluções oferecidas por vários atores menores. Isso pode incluir startups parceiras ou adquiridas, núcleos internos de inovação ou spin offs – startups endógenas, criadas e mantidas por uma empresa tradicional. Juntos, eles giram a roda da inovação.

Os parques tecnológicos e incubadoras, chamados de ecossistemas de inovação, também aparecem nesse escopo. Eles recebem suporte acadêmico e aportes estatais e da iniciativa privada para acolher negócios embrionários. “O apoio vai desde a fase inicial e os programas de aceleração até a presença de fundos de investimentos internacionais, resultando em acesso aos mercados”, enumera José Muritiba, diretor executivo da Associação Brasileira de Startups (Abstartups).

A Randon, septuagenária no setor de transportes, criou o programa Randon Ventures em fevereiro para investir em startups. Já fechou 12 parcerias. Além disso, lançou o Conexo, um hub de inovação aberta que pretende unir startups, universidades e comunidade. A incubadora fica em Caxias do Sul (RS) e é administrada em parceria com a operadora de coworkings Nau. O objetivo é gerar oportunidade para novos negócios e aplicar soluções em problemas reais da Randon. “O grau de inovação, em um ecossistema está diretamente ligado aos seus stakeholders, que podem se utilizar de inovação para atuar de forma mais eficiente” analisa Ramalho, da FGVnest. A SulAmérica, por sua vez, patrocina o Startup Weekend Health, uma maratona de inovação em saúde que reúne interessados em compartilhar soluções para o setor.

Ecossistemas também são um ativo fundamental na economia de vários países. Desde que foi confirmado o primeiro caso de Covid-19, a China se valeu da agilidade das redes de inovação para criar soluções adaptadas ao cenário de restrição. Um exemplo é o Digital Loan One Box, uma plataforma online que integra serviços financeiros de diferentes bancos – como crédito e avaliação de risco. Todo o processo é feito de forma remota. O aplicativo foi criado por uma parceria entre Huawei e Sunline. O ecossistema da gigante Huawei tem mais de 5,4 mil parceiros digitais de 60 países. “Em nações desenvolvidas, os ecossistemas são motores do crescimento econômico e social”, destaca Jorge  Audy, superintendente de Inovação e Desenvolvimento da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

É assim em Israel, apelidada de Startup Nation. O país detém o maior número de startups per capita do mundo: uma para cada 1,8 mil habitantes. No Brasil, essa relação é de uma a cada 33 mil. Mais de 300 multinacionais têm centros de pesquisa de alta tecnologia por lá, incluindo Microsoft, IBM, Apple e Intel. Os negócios ligados ao setor tecnológico representam 12% do PIB e 50% das exportações. Cerca de 4,4% da riqueza é reinvestida no fomento dos ecossistemas internos – o triplo do aporte brasileiro em inovação. O governo local calcula que cada US$ 1 injetado nessa área gera até US$ 8 em retorno.

A Finlândia também embasa sua economia em inovação. Em 2008, o país nórdico criou uma política de Estado que tem os ecossistemas regionais e as redes colaborativas como um de seus pilares. A capital, Helsinque, possui 650 mil habitantes e 500 startups em operação. É lá que ocorre a Slush, uma das maiores convenções de inovação do mundo, com cerca de 25 mil participantes. Uma projeção do Fórum Econômico Mundial coloca Helsinque entre os dez centros de tecnologia que irão mudar o mundo. São Paulo, aliás, também integra essa lista.

“A tecnologia, por si só, não tem o poder de transformar a mentalidade gerencial e de negócios. processos exigem uma mudança de mindset.”

Jorge audy
——- superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS ——-

Inovação mental

Os cases vindos da iniciativa privada e a proliferação dos vales de inovação – como Porto Digital, em Recife (PE), e TecnoPuc, em Porto Alegre (RS) – indicam uma ascensão dos ecossistemas no Brasil. “Vivemos o estágio mais maduro do ecossistema brasileiro. O mercado está entendendo a importância das startups”, acredita Muritiba, da Abstartups. Entre 2015 e 2019, o número de startups mais do que triplicou no País, passando de 4 mil para quase 13 mil. A continuidade desse crescimento depende da consolidação de uma mentalidade inovadora por parte dos gestores.

O relatório Navigator Made for the Future, do HSBC, revela uma relação direta entre mais investimentos e inovações – vide os casos de WEG e Israel. O documento destaca, ainda, que a tecnologia leva a uma mudança cultural das organizações. E esse é o ponto central quando se trata de estratégia de inovação, como os ecossistemas. “A tecnologia, por si só, não tem o poder de transformar a mentalidade gerencial e de negócios”, diz Audy. “Processos assim exigem uma mudança de mindset.” //


Efeito Open Banking

Maior autonomia do consumidor sobre seus dados bancários impulsionará as APIS

Os ecossistemas devem dar o tom do setor financeiro a partir de 2021, com a consolidação do Open Banking. Essa política concede maior autonomia aos clientes sobre a gestão de seus dados bancários. Eles poderão optar por disponibilizá-los a outras instituições, impulsionando a interação entre os atores do mercado. O fluxo dessa troca de dados ocorrerá por meio de APIs – sigla em inglês para Interface de Programação de Aplicações.

As plataformas de API são a parte operacional dos ecossistemas digitais financeiros, fazendo o elo entre os bancos e diferentes players – como as startups. Elas poderão utilizar o oceano de dados (com o consentimento dos usuários) para elaborar soluções disruptivas às demandas dos consumidores. “É uma forma de democratizar o acesso às informações bancárias e oferecer um melhor produto aos clientes e parceiros”, pontua Ezequiel Citolin, gerente de Business Intelligence e Inovação da Bem Promotora.

O Reino Unido opera em Open Banking desde 2018 e é uma referência nessa estratégia. Em dois anos, um milhão de pessoas já solicitaram aos bancos o compartilhamento de seus dados. O número de provedores de serviços bancários abertos dobrou, passando de 100 para 200. São soluções nos moldes do Pix, o sistema de transferências interbancos que começou a operar em novembro no Brasil.

Inovações assim impulsionarão os investimentos das instituições financeiras na montagem de centrais de APIs. E a Bem Promotora já tem a sua. O BIC (Bem Integrado Corban), lançado em 2019, disponibiliza as soluções da empresa de forma integrada aos correspondentes bancários. A plataforma foi elaborada pelo TecBemLabs, um laboratório de tecnologia dedicado à criação de ferramentas customizadas às demandas da Bem e de parceiros. “O TecBemLabs oferece um tutorial que ensina ao correspondente como integrar suas plataformas ao BIC”, diz o especialista em sistemas Caio Lucena, um dos criadores da central.

O ecossistema da Bem é acessado por mais de 150 correspondentes. As funcionalidades incluem consulta de comissão até formalização do contrato, além de refinanciamentos, portabilidade e pedido de cartão consignado. Tudo remoto. Outra vantagem é que a plataforma pode ser usada por startups interessadas em se associar ao ecossistema para gerar novas soluções.


Correio 4.0

Impulsionada pelas startups de logística, a cadeia de suprimentos se fortaleceu na pandemia

A logística é um ponto comum a muitos ecossistemas e ganhou ainda mais relevância na pandemia, com o aumento do e-commerce. “O setor respondeu bem sob pressão. E o consumidor começa a ver vantagens em comprar online”, avalia José Lyra , membro do Comitê de E-commerce da Associação Brasileira de Logística (Abralog). Isso deve dar um gás para as logtechs, as startups de logística. Elas integram um mercado global que crescerá 15% ao ano até 2024, segundo a Thomson Reuters. Em 2020, o Brasil somava 234 logtechs, conforme a Abstartups.

Um dos destaques do setor é a EntregAli, que criou uma caixa de correio inteligente, usada em empresas e condomínios. Quando a encomenda é depositada, o aparelho gera um comprovante e notifica o destinatário via aplicativo. O conteúdo pode ser retirado com uso de senha ou biometria. Entre março e julho, houve um aumento de 700% no uso da solução – e o faturamento da EntregAli cresceu 64% no período. “Para 2021, o plano é disponibilizar pontos públicos para que qualquer pessoa tenha um endereço de entrega na nossa rede”, revela Raquel Schramm, CEO da startup paulista fundada em 2017.

Publicado na 2ª edição da Revista 20/30. Baixe a versão digital aqui.

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