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ESG: por que ele é tão importante

O que está por trás da sigla que virou febre no mundo corporativo – e como atuar em conformidade com as melhores práticas do mercado


Por Paulo César Teixeira
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por bem2030
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Como uma sopa de letrinhas, a sigla ESG entrou no cardápio do mundo corporativo. Agora, está na ponta da língua de gestores de empresas, fundos de investimento e consultorias pelo mundo afora, ocupando espaço privilegiado nas conversas sobre negócios. A rigor, é a junção dos três pilares da sustentabilidade, que se transformaram em critério para aplicação de recursos no setor privado, a partir do surgimento de fundos que oferecem condições mais favoráveis de financiamento para empresas que priorizam valores sustentáveis em suas ações. 

O que significa? O E (do inglês, Environmental) inclui temas como poluição do ar e da água, aquecimento global e emissão de carbono, além de desmatamento e escassez de água. Já a letra S (Social) envolve o cuidado com as pessoas, o que abrange desde transparência e proteção de dados na relação com clientes até adoção de políticas de diversidade no ambiente de trabalho e respeito à legislação trabalhista – sem esquecer medidas de apoio às comunidades locais e outras iniciativas para reduzir as desigualdades sociais. Para fechar o tripé, o G (Governance) atua em duas frentes. A primeira é a ética nos negócios, matéria que consta na agenda das companhias desde que o compliance (dever de estar em conformidade com atos, normas e leis) virou exigência para quem deseja operar no mercado de capitais. Isso inclui, é claro, aplicar medidas internas para impedir a prática de corrupção e outras condutas reprováveis (racismo, assédio sexual, assédio moral etc.).  

A novidade é que, agora, a governança ganhou também a missão de incorporar o E e o S à estratégia da organização. Ou seja, sem o exemplo que vem de cima, fica difícil implantar o ESG, como afirma Ricardo Assumpção, da consultoria Grape ESG: “Se o Conselho de Administração ou o CEO não acredita, a chance de dar certo é zero”.  

Corrida contra o tempo  

As transformações requeridas não se limitam a uma alteração de postura da alta direção – na verdade, exigem mudanças estruturais. Segunda maior bolsa de valores do mundo, com foco em tecnologia, a Nasdaq se declarou favorável à ideia de que os órgãos diretivos das companhias se tornem “menos brancos e masculinos”, informou o Wall Street Journal. Para isso, protocolou junto a Securities and Exchange Commission (que regula o mercado de capitais nos Estados Unidos) uma proposta para que elas sejam obrigadas a divulgar a formação de seus Conselhos de Administração por raça, gênero e orientação sexual. 

No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) defendeu a inclusão de dados sobre questões ambientais, sociais e de governança nos formulários de referência por meio dos quais as empresas de capital aberto prestam informações à autarquia. A finalidade é destacar o posicionamento adotado sobre desenvolvimento sustentável no contexto dos negócios e as ações sobre diversidade no quadro de colaboradores.  

É uma corrida contra o tempo, e algumas empresas já tomaram a dianteira. A corretora brasileira XP, por exemplo, planeja contar com 50% de mulheres no quadro funcional até 2025 – hoje, o percentual é de 22%. Para isso, foi criado o MLHR3, grupo interno que debate ideias e treina lideranças femininas, além de fiscalizar a evolução de indicadores de  

promoção e remuneração na comparação entre homens e mulheres. A questão racial é mais um nó a ser desatado. No Brasil, conforme dados do IBGE, a remuneração de pretos e pardos, em média, é 60% menor em relação à dos brancos. Para tentar reverter o cenário, 25% das promoções para cargos de liderança do McDonald’s no país, em 2020, foram reservadas a pessoas negras, das quais 36% beneficiaram mulheres.  

Outro desafio é atrair o público LGBTQIAP+ nos processos de recrutamento. Um levantamento da McKinsey&Co revelou que empresas percebidas como favoráveis à diversidade de orientação sexual contam com 25% a mais de possibilidades de superar a performance financeira da concorrência. Não à toa, 13% dos líderes da L’Oréal Brasil são autodeclarados LGBTQIAP+ e, na General Electric do Brasil, ao menos uma vez por mês, a CEO Viveka Kaitila troca ideias com Miriane Camargo, líder do grupo Pride Alliance da organização. “Ela me ensina e me corrige e, juntas, pensamos como podemos mudar a situação de pessoas que vivenciam dificuldades e discriminações”, relatou Viveka. 

Sinais de alerta  

Segundo a plataforma Google Trends, a busca pelo termo ESG vem alcançando, em 2021, o patamar mais elevado em 16 anos – é quatro vezes superior à média de 2020 e 13 vezes maior que a de 2019. É uma moda que apareceu do nada? Definitivamente, não. “A questão da sustentabilidade faz parte da agenda há décadas, mas por muito tempo ficou restrita às áreas de filantropia e responsabilidade social. Hoje, precisa estar integrada ao processo decisório da empresa”, diz o porta-voz da Grape ESG.  

Ninguém imagina que o ESG entrou na pauta das reuniões de diretoria porque, certa manhã, o CEO despertou com uma vontade irrefreável de salvar a humanidade. “É claro que existe boa intenção, mas estamos falando de negócios”, sublinha Maurício Colombari, sócio da PwC Brasil. Basicamente, o mercado percebeu que os denominados “riscos não financeiros”, como mudanças climáticas, cedo ou tarde, terão impacto sobre o lucro das empresas. O passo seguinte foi precificar essa probabilidade cada vez mais iminente. 

No que diz respeito ao clima, aliás, não faltam sinais de alerta. Em agosto de 2021, foi divulgado relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), criado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, com o anúncio de que a temperatura do planeta atingirá o limite de +1,5°C em comparação com a era pré-industrial por volta de 2030, uma década antes do previsto nas projeções feitas em 2018. Pior: a elevação chegará a 2°C, caso as emissões não sejam drasticamente contidas, antes de 2050. 

Um mês antes, uma onda de calor havia causado centenas de mortes súbitas no Canadá, com marcas recordes de 49,5ºC. Do outro lado do Atlântico, tempestades deixaram mais de 160 pessoas mortas e milhares desaparecidas na Alemanha e na Bélgica. O fenômeno se repetiu na China e em outros pontos do planeta, enquanto o Brasil passava a enfrentar uma forte crise hídrica. Para os cientistas, eventos climáticos de características extremas deverão se tornar mais frequentes a cada ano. Uma das ações de mitigação necessárias é diminuir o ritmo da exploração de recursos naturais. No compasso atual, esgotou-se em agosto a cota anual que a Terra é capaz de repor. “Se compararmos a uma conta bancária, é como se entrássemos no cheque especial na metade do ano”, diz Ricardo Assumpção.  

Do Vietnã a Davos  

Até chegar ao ESG, o mundo dos negócios ultrapassou vários degraus. O primeiro fundo de investimento que buscou valorizar práticas empresariais alinhadas aos anseios da opinião pública data de 1971, quando foi instituído o PAXWX (Pax Sustainable Allocation Fund Investor Class), no qual não podiam ingressar empresas que financiassem a Guerra do Vietnã. Depois disso, corporações com negócios na África do Sul também passaram a sofrer restrições por conta do apartheid. Assim como as que se envolviam em catástrofes ambientais, como o vazamento de toneladas de gases tóxicos de uma fábrica de pesticidas em Bhopal, na Índia, em 1984, ou o despejo de 11 milhões de galões de petróleo na costa do Alasca, em 1989. 

A seguir, o mercado de capitais criou índices socialmente responsáveis, a exemplo do MSCI KLD 400 Social, de 1990, que diminuiu aportes em indústrias de armas, cigarros e álcool. Ou o Dow Jones Sustainability, de 1999, com parâmetros para avaliar a performance das empresas que, hoje, seriam compatíveis com o ESG. A sigla propriamente dita ganhou projeção em 2004, quando despontou nas páginas do Who Cares Wins, Connecting Financial Markets to a Changing World, relatório encomendado por Kofi Annan, secretário-geral da ONU à época, para demonstrar como os princípios sociais, ambientais e de governança poderiam ser agregados às resoluções financeiras.  

O assunto ficou em banho-maria até agosto de 2019, quando 181 CEOs assinaram uma Declaração de Propósito para privilegiar o desenvolvimento sustentável e a responsabilidade social na tomada de decisões de suas empresas. Entre eles, estavam pesos-pesados do capitalismo, como Tim Cook, da Apple; Jamie Dimon, da JP Morgan; Alex Gorsky, da Johnson & Johnson; e Larry Fink, da BlackRock. No início de 2020, Fink – com a autoridade de diretor-executivo da maior gestora de fundos do mundo, com US$ 7,8 trilhões em ativos – deu um xeque-mate ao anunciar que a sustentabilidade havia se transformado em critério-chave para a injeção de recursos no setor privado.  

Segundo o gestor do BlackRock, o risco climático balançou os “pressupostos básicos” das finanças modernas. E quem não se der conta disso encontrará “um crescente ceticismo por parte dos mercados e, por sua vez, um custo de capital mais elevado”. Paralelamente, reunidas em Davos para o Fórum Econômico Mundial, as 120 maiores corporações do mundo decidiam apoiar os esforços para desenvolver um conjunto básico de métricas e formas de divulgação comuns sobre ESG. 

Da teoria à prática: a PwC previu que, na Europa, até 2025, quase metade (57%) dos ativos estará alocada em fundos ESG (em 2020, o percentual foi de 15,1%). “É um caminho sem volta”, declara Domingos Valladares, professor da Escola de Negócios da PUCRS. A Morningstar, empresa de dados de investimentos com base em Chicago (EUA), contabilizou 3,7 mil fundos ESG em atividade hoje em nível mundial, dos quais 648 são aplicações tradicionais que se adequaram aos novos tempos. Entre eles, 534 fundos até mudaram de nome – para não deixar dúvidas. 

No Brasil, os dados ainda são modestos: em 2020, havia cerca de R$ 700 milhões aplicados em fundos ESG, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Embora o montante seja quase três vezes maior que o do ano anterior, corresponde a apenas 0,13% das aplicações em fundos de ações no país. 

Como preparar a empresa  

Se investir no ESG tende a ser um bom negócio, a questão é como preparar a empresa para as novas práticas. Para Nelmara Arbex, especialista na área de sustentabilidade da KPMG, um bom começo é assumir compromissos públicos em favor de boas causas, ainda que, para isso, muitas vezes seja preciso tocar em temas espinhosos. “A Nike virou um fenômeno de tanto se meter em encrencas”, brinca ela, relembrando campanhas promocionais polêmicas da marca.  

Em 2018, por exemplo, a multinacional de material esportivo contratou como garoto-propaganda Colin Kaepernick, jogador da NFL (liga de futebol americano), que tinha o hábito de se ajoelhar durante a execução do hino dos Estados Unidos antes das partidas, como protesto contra a violência policial dirigida à população negra. Nem todos os clientes da Nike gostaram – alguns até queimaram tênis em vídeos nas redes sociais –, mas a empresa não retrocedeu.  

Só que não basta se posicionar corajosamente perante a opinião pública sem demonstrar empenho para implementar políticas internas alinhadas ao compromisso assumido. De preferência, fixando metas que possam ser cumpridas ao longo do tempo. Muitas vezes, os resultados não são positivos no curto prazo. Algumas companhias, para demonstrar transparência, chegam a inserir nos relatórios de sustentabilidade bandeirinhas verdes ou vermelhas para simbolizar avanços e retrocessos em causas específicas. “Compartilhar dificuldades não é humilhação ou constrangimento, se a empresa jogar limpo com o público. Com isso, ela se diferencia das que não estão comprometidas”, assegura Nelmara, que já exerceu a vice-presidência da Global Reporting Initiative (GRI), entidade internacional que sugere padrões de materialidade para a elaboração dos relatórios de sustentabilidade. 

Em termos de estrutura organizacional, uma solução adotada é criar um departamento exclusivo para cuidar das questões referentes ao ESG. A Natura foi além. E não só montou um time como assentou a área de sustentabilidade na diretoria, reservando a ela uma das vice-presidências. Mas é preciso levar em consideração que, embora a demanda esteja em alta, a formação de lideranças ainda é incipiente. No final de 2020, ao analisar 1 milhão de contas no LinkedIn, o CFA Institute (associação global que certifica profissionais de finanças) concluiu que menos de 1% tinha qualificação em ESG.  

Conforme Ricardo Assumpção, do Grape ESG, os MBAs para formar líderes com esse tipo de expertise ainda são novidade – nos Estados Unidos, as primeiras turmas foram abertas em 2021. Ele próprio se formou no primeiro curso do gênero da London Business School, criado em 2020 por Ioannis Ioannou, um dos maiores pesquisadores em responsabilidade social corporativa e sustentabilidade do mundo. No Brasil, FGV e IBGC introduziram cursos de gestão em ESG no segundo semestre de 2020. Já o Insper planejou suprir a demanda em setembro deste ano. 

Ilhas de sustentabilidade  

Por outro lado, há um consenso de que não adianta contratar especialistas e isolá-los em uma sala para que produzam relatórios que nem mesmo o CEO vai ler. A essa altura, a preocupação com a sustentabilidade precisa estar disseminada por toda a empresa, o que faz com que muitos defendam a supressão de uma área exclusiva do ESG. Maurício Colombari, da PwC Brasil, defende um modelo no qual o setor não é extinto. Ao contrário, se fortalece para atuar como facilitador na incorporação das práticas sustentáveis à estratégia do negócio. “É sempre bom ter um especialista para o qual ligar em caso de dúvidas”, aconselha. 

A opção de consultorias externas é uma alternativa para capacitar lideranças em todas as frentes. De olho nas oportunidades que se abrem, a PwC pretende recrutar mais de 100 mil profissionais de ESG em nível global para ajudar as companhias a acharem o caminho certo. Outra maneira de conectar o organismo da empresa com as metas de sustentabilidade é vincular o ESG não somente ao pagamento de bônus, mas à própria política de promoção dos colaboradores. Com isso, todos irão saber que é sério o compromisso da companhia com as metas sociais e ambientais e que dele depende o sucesso do negócio. “Em uma analogia com o futebol, é como premiar quem joga a bola na direção do gol adversário”, explica Nelmara Arbex. 

4 COISAS QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE FUNDOS ESG 

  1. O que são: fundos que levam em consideração parâmetros de sustentabilidade para capitalizar as empresas – e não apenas índices financeiros. Os investidores observam como fatores ambientais, sociais e de governança estão relacionados ao negócio;  
  1. Vantagens: para as companhias, a vantagem é o custo financeiro inferior em comparação ao dos fundos tradicionais. Os benefícios se expandem por toda a cadeia, uma vez que os fornecedores se sentem pressionados a cumprir as regras dos ecossistemas nos quais estão inseridos; 
  1. Regras: engana-se quem pensa que os fundos oferecem um cheque em branco às empresas. Instituições independentes criaram escores ESG para avaliar se elas cumprem ou não os objetivos sustentáveis a que se propõem. Quem não andar na linha paga mais pelo financiamento;
  1. A quem se destina: setores da atividade econômica com potencial elevado de impacto sobre o meio ambiente podem participar? Maurício Colombari, da PwC, entende que sim, até para que elas possam contribuir para diminuir os impactos ambientais: “Se acabarmos com as mineradoras, como produziremos baterias para os carros elétricos, que utilizam íons de lítio como matéria-prima?”.

Longo caminho a percorrer 

Uma das críticas ao ESG é a predominância de temas relacionados à preservação ambiental em detrimento do social. Em 2020, o Itaú BBA perguntou a investidores qual dos três pilares do ESG era mais importante – e o S não foi citado uma vez sequer. “Talvez isso se deva à origem da pauta, que primeiro despontou nos países desenvolvidos, onde as atenções estão mais voltadas às mudanças do clima”, diz Maurício Colombari. Episódios como o assassinato de um homem negro numa loja do Carrefour em Porto Alegre, em 2020, fortalecem a narrativa dos céticos. As ações da empresa registraram queda de cerca de 5%, mas rapidamente se recuperaram. Isso colocou em dúvida a preocupação do mercado de capitais com o aspecto social. Igualmente, a onda de IPOs vista no Brasil nos últimos anos traz aspectos que frustram, em parte, algumas expectativas em relação ao ESG. Isso porque a maioria dos investidores ainda está mais interessada em certificar-se a respeito da rentabilidade – e só depois buscam saber o que a empresa pretende fazer em termos diversidade ou meio ambiente, por exemplo. “Isso apenas mostra que a jornada será longa, já que não se muda do dia para noite”, conclui o sócio da PwC. 

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