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Metaverso sem loucura

Em dez anos, boa parte da sua vida poderá estar acontecendo no metaverso. Mas a imersão nesse oceano de pixels e possibilidades ainda está distante. Não pularemos nele de cabeça: será um mergulho gradual. E a tendência é de que o setor financeiro vá na frente para sentir a temperatura. A seguir, 20/30 aponta desafios e possíveis soluções que bancos e fintechs encontrarão nessa Jornada


Por Paula Chidiac/Edição: Emanuel Neves
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por bem2030
Metaverso

Há madrugadas em que Enzo acorda com um incômodo na nuca. Sua jornada como arquiteto em Decentraland tem começado cada vez mais cedo. Ele está com dificuldade em desenvolver o novo cenário de um ambiente de relacionamento para uma instituição financeira. Por enquanto, o projeto só roda no Horizon e no The SandBox. Enzo fica circulando entre um e outro para comparar os parâmetros. O problema reside em uma falha do código que mapeia os dados dos clientes e os compartilha com outros 200 bancos e fintechs ao redor do mundo. Entretanto, não existem programadores disponíveis para dar conta do reparo no momento. Um banco de Nova Déli, na Índia, notou esse gargalo da empresa de Enzo, a partir da análise de seus dados corporativos. O avatar de um dos gerentes o chamou para uma reunião em um café do CryptoVoxels. Ele vai apresentar uma lista de candidatos colhida pelas talent techs de seu ecossistema. Os salários são bem altos. Mas Enzo deu a sorte de ser são-paulino. Seus NFTs do Morumbi valorizaram bastante desde que o estádio foi tokenizado. Quando atingiram a marca pré-estipulada, o smart contract automaticamente os converteu em Real Digital e os remeteu para a sua conta empresarial. Com a receita, Enzo poderá investir no aumento do time de programadores. Já uma fintech de crédito brasileira notou a mudança no seu padrão de sono e lhe ofereceu uma taxa de financiamento atrativa para a aquisição do Quest 15. A última atualização dos óculos de imersão tem uma nova ergonomia traseira. Foi uma imposição do mercado, à medida que cada vez mais pessoas estão dormindo e acordando sem sair do metaverso. 

O trecho anterior é uma simulação. Assim como o próprio metaverso. Quase tudo ali é inviável. Ao menos, por enquanto. Em 2033, talvez estejamos experienciando uma rotina semelhante à do arquiteto Enzo. Ou até bem antes disso. Em 2026, 25% das pessoas passarão mais de 1h de seu dia no metaverso, segundo o Gartner. Já a consultoria de tecnologia Earthweb aponta que o desenvolvimento de plataformas e atividades nesses espaços virtuais deve movimentar US$ 280 bilhões até 2025. Ainda pode ser um pouco difícil entender o que é um token não fungível (NFT). Mas esse mercado vai transacionar US$ 231 bilhões até 2030, de acordo com a Verified Market Research (VMR). Números assim já estão no radar das instituições financeiras. Embora não sejam a sua pauta central.  

A rigor, o metaverso é uma miragem bruxuleando no asfalto quente do futuro financeiro. Mesmo que já seja possível diferenciar alguns rostos conhecidos perambulando por lá. O Itaú, por exemplo, migrou uma de suas campanhas virais para o Cidade Alta, o servidor brasileiro do game GTA. Administrado pela Outplay, o ambiente organiza shows e eventos virtuais com picos de 250 mil espectadores simultâneos. Outra ação do Itaú foi o lançamento de uma linha de investimentos em empresas voltadas para o metaverso, o Certificado de Operações Estruturadas (COE) Autocall Metaverso.  

O Banco do Brasil, por sua vez, mirou a Geração Alfa e lançou um jogo de educação financeira no Roblox – a plataforma mais popular entre crianças, com 45 milhões de usuários. Já a estratégia do Bradesco focou no público interno. Em parceria com startups, o banco criou experiências imersivas para que os colaboradores pudessem entender como é fazer parte dessa realidade virtual. A intenção é, a partir daí, elaborar jornadas aderentes ao cliente externo de maneira mais assertiva.  

O case do Bradesco traz dois pontos importantes para entendermos o cenário atual do metaverso em relação ao setor financeiro. O primeiro deles é a imersão. Na prática, essa pode ser considerada a linha de chegada – e não o ponto de partida do processo. “Toda vez que derrubamos as barreiras entre físico e digital, já estamos experimentando o metaverso”, define Maurício Andrade de Paula, consultor em transformação digital e diretor do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar). A largada, como se vê, foi dada há bastante tempo. Já o metaverso como uma réplica fidedigna e tridimensional da realidade, em que iremos curtir sensações virtuais no melhor estilo sci-fi, ainda dependerá de uma série de avanços tecnológicos. Não acontecerá de uma hora para outra.  

A aclimatação ao ambiente simulado e a sua consolidação no cotidiano serão graduais. É difícil precisar se todos seremos Enzo em cinco, dez ou 15 anos. As projeções variam muito. Mas a questão não é bem sobre quando estaremos no metaverso: é mais sobre quanto estaremos. O setor financeiro ocupa a vanguarda da transformação digital. Assim, é natural que puxe a fila desse movimento, funcionando até mesmo como avalista de uma inovação ainda encarada com desconfiança. A jornada, portanto, será mais importante do que o destino. 

O recorte da rotina do fictício Enzo envolve diversos elementos instrínsecos aos desafios tecnológicos e processuais que irão pautar o setor financeiro nos próximos anos. Todos já são palpáveis e independem do sucesso do metaverso. No encerramento da Febraban Tech 2022, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que estamos caminhando para uma economia tokenizada. Ou seja, o norte está definido. Um dos primeiros passos rumo a esse horizonte foi dado pelo Open Finance. E aqui vamos encontrar o segundo item do case do Bradesco. 

Bem antes de Mark 

O termo metaverso ganhou de vez os holofotes em outubro de 2021, quando Mark Zuckerberg anunciou a mudança do nome do Facebook para Meta. A remodelação na marca sinalizou um redirecionamento da holding, que hoje encara a realidade imersiva como o futuro do entretenimento e da sociedade. O conceito de metaverso, entretanto, surgiu quase 30 anos antes. A origem é o livro Snow Crash, de Neal Stephenson. Lançada em 1992, a obra é um romance cyberpunk que fala sobre uma realidade virtual acessível por meio de óculos especiais. 

Todos os mundos – o mundo 

Não existe um só metaverso, mas vários deles. Alguns são até bem antiguinhos. Confira os principais endereços da realidade simulada: 

  • The Sims: Lançado em 2000, o jogo envolve a criação de personagens virtuais em um mundo digitalizado, mas não traz a possibilidade de interagir com outros seres humanos. Ou seja, The Sims é como um avô do metaverso; 
  • The SandBox: Desenvolvido pela Pixowl sobre o blockchain da Ethereum, The Sandbox é um metaverso 2D em que os usuários podem negociar ativos virtuais (como terrenos e carros) por meio de NFTs; 
  • Second Life: Considerado uma das primeiras experiências de metaverso. Lançado em 2003, chegou a ter 73 milhões de contas. Hoje, caiu para 40 mil usuários por dia. A queda se deve às limitações tecnológicas e ao preço dos artigos virtuais. 
  • Horizon Worlds: Mantida pela Meta, é uma experiência 3D em que até 20 usuários podem se reunir para montar ou explorar mundos digitais. É restrita para maiores de 18 anos. Por enquanto, disponível apenas nos EUA e no Canadá; 
  • Decentraland: É uma plataforma 3D virtual lançada em 2020 pela Fundação Decentraland. Permite a compra de terrenos digitais, que se traduzem em NFTs negociados na criptomoeda Mana; 
  • CryptoVoxels: Um dos menores metaversos até aqui. Também desenvolvido na Ethereum, o Cryptovoxels aposta forte na ambientação de eventos sociais, como shows virtuais e desfiles de moda. 

Os novos soberanos 

A maturidade do Open Finance é a missão que unirá o setor financeiro daqui em diante. Por ora, um dos desafios é a evangelização do cliente 

O Open Finance é a continuação de uma virada de chave iniciada em fevereiro de 2021, com a implementação do Open Banking por parte do BC. Na primeira etapa, os bancos apresentaram seus canais de coleta de informações. O segundo estágio trouxe o compartilhamento desses dados. Já a terceira fase incluiu as primeiras transações coletivas, por meio da tecnologia do Pix. Agora, a comutação de informações passa a incluir as finanças pessoais e outras áreas – como investimentos e câmbio. Daí a mudança do nome, identificando a abertura do sistema financeiro como um todo. 

O grande diferencial do projeto é permitir uma socialização dos dados dos clientes entre as instituições financeiras. Essa unificação de Big Datas é como um lego feito de APIs – as interfaces para troca de dados entre sistemas. Cada banco ou startup vai acoplar a sua para ceder e captar os dados disponibilizados. É uma demanda tecnológica que exige uma recalibragem constante, tanto em termos de funcionamento quanto de segurança. O intuito é sempre aumentar a oferta de informação sobre os usuários. “Conhecer o cliente é o maior benefício que os bancos encontram nesse modelo”, confirma Pedro Bramont, diretor de negócios digitais & open finance do Banco do Brasil.  

Com isso, é possível tornar os produtos bancários mais assertivos e condizentes com as necessidades de quem irá adquiri-los. Trata-se de um ganho e tanto para o consumidor – e um novo patamar de competitividade para o mercado. Por isso, não foi à toa que o Bradesco optou por colocar o time interno para sentir o clima do metaverso. A estratégia teve como foco a humanização de eventuais soluções imersivas. Algo que responde à nova ordem do setor financeiro: o cliente deve estar no centro do processo. 

Conselheiro de bolso 

A convergência também é um dos traços mais evidentes do Open Finance. Um exemplo são os agregadores financeiros, aplicativos que concentram transações feitas pelo cliente em qualquer banco. Em maio de 2022, o Banco do Brasil lançou o Minhas Finanças. O app permite que o usuário controle todas as suas contas e receba insights sobre oportunidades do banco. “Se não houvesse o Open Finance, teríamos apenas informações referentes ao BB e poderíamos não estar oferecendo conselhos úteis aos clientes”, diz Pedro Bramont. O agregador já tem mais de 4 milhões de usuários e é responsável por cerca de 15% das autorizações de compartilhamento de dados do banco.  

Outra inovação semelhante é o Iniciador de Transações de Pagamentos (ITP). Com o sistema, o cliente pode fazer um PIX usando dinheiro depositado em outros bancos, além de aproveitar serviços movimentando valores entre contas. Itaú, BB, Bradesco e Mercado Pago já foram autorizados a atuar com ITPs pelo BC. 

O fim das fronteiras 

O Open Finance não é o fim da linha quando o assunto é integração do sistema financeiro. A próxima etapa é o chamado Open Economy. Aqui, o cenário passaria a contar com instituições de todos os setores e de outros países. Os desafios de uma economia aberta são ainda maiores nos campos regulatório e tecnológico. Ou seja, é uma meta distante. Por ora, existem clusters dando sequência ao modelo. São os casos do Open Insurance, na área de seguros, e do Open Health, envolvendo empresas de saúde. 

Customização inteligente 

A demanda corporativa de Enzo por um programador vai nesse sentido. Em nossa simulação futurista, um banco da Índia percebeu a sua necessidade e foi proativo. Mas há exemplos mais plausíveis. “Um caminhoneiro pode não se interessar por receber uma oferta de um título de capitalização. O que ele quer é comprar um pneu mais barato, porque precisa trocar três vezes por ano”, explica Carlos Eduardo Benitez, CEO da BMP Money Plus, banco focado no ecossistema de fintechs.  

Colocar o cliente no centro é entender que uma linha de crédito para manutenção de frota é muito mais importante para o caminhoneiro. Saber o momento em que a troca de pneus ocorre para abordá-lo com uma oportunidade atrativa é fruto da análise oferecida pelos dados de comportamento. Eis o sumo do Open Finance. Ou seja, o mindset deixa de ser o convencimento sobre a validade de adquirir o produto bancário. Agora, a ideia é desenhar uma carteira em que as soluções resolvam dores existentes, claramente identificadas, na hora certa e com condições melhores do que a concorrência. É desafiador, sem dúvida. Mas a aderência tende a ser bem maior. Para que o match realmente aconteça, entretanto, existem alguns entraves.  

O primeiro é conseguir evangelizar os clientes sobre as vantagens de compartilhar suas informações. Eles precisam entender que são os verdadeiros reis do cenário financeiro aberto. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGDP), instituída em 2020, entregou o cetro quando lhes conferiu a primazia sobre os dados pessoais. E eles estão dispostos a dividi-los. Cerca de 65% dos brasileiros aceitariam ceder suas informações aos bancos, segundo uma pesquisa da plataforma aberta Quanto. Em contrapartida, o percentual de pessoas que dizem não estar familiarizadas com o assunto é o mesmo – 65%. O dado é do Ranking de Onboarding Digital 2021, desenvolvido pela IdWall. 

Como se vê, o público ainda precisa se ambientar ao Open Finance. A própria nomenclatura em inglês pode ser um entrave para essa assimilação. Outro debate é sobre como explorar as opções oferecidas pelo banco. “Hoje, estamos falando do saldo da conta. Mas há informações mais complexas, como carteira de investimentos e ambiente de seguros, que terão de ser ensinadas”, diz Benitez. A missão de doutrinar os clientes depende de ações de educação financeira que precisam ser organizadas tanto pelos governos quanto pelo mercado.  

Convergência desafiadora 

O beyond banking e o Banking as a Service (BaaS) começam a derrubar os muros entre o setor financeiro e as demais áreas, gerando maior sinergia e competitividade entre players 

A solução para a lacuna de programadores que emperrou o projeto de Enzo veio por meio de uma startup de RH intermediada por um banco estrangeiro. É o conceito de Open Economy conectando-se às estratégias de beyond banking (além do banco, em livre tradução), outro post-it na agenda do sistema financeiro. Aqui, a ideia não é apenas conseguir identificar que o caminhoneiro está precisando de crédito para os pneus. O player vai além e molda uma curadoria específica, em um marketplace onde há desde pneus até serviços de balanceamento e geometria. “É um banco do caminhoneiro”, define Benitez, da BMP. Essa realidade, aliás, já está em curso.  

O Santander, por exemplo, percebeu que muitos clientes pediam crédito imobiliário sem terem um imóvel escolhido. Por isso, aliou-se a corretoras para facilitar a busca da casa dos sonhos. Sua rede também tem fornecedores de placas fotovoltaicas e empresas de reformas. “Não é apenas aumentar o portfólio de serviços dos bancos, mas entender o cliente a fundo e oferecer uma oportunidade que possa mudar a vida dele”, ressaltou Nathália Britto, gerente de inovação aberta do Lab 033, núcleo de inovação do Santander, durante a Febraban Tech.  

Já a plataforma Broto, criada pelo Banco do Brasil para o mercado agro, viabilizou uma solução para combater o javaporco por meio de seu ecossistema. O animal, uma cruza de porco com javali, é famoso por invadir fazendas de milho e exterminar o cultivo. A Broto ainda oferece agricultura de precisão e ajuda na venda de equipamentos usados. Tudo isso para fomentar os produtos de seu core bancário. “O beyond banking é uma forma de permitir que o cliente se satisfaça em um mesmo canal e uma reação ao aumento na concorrência de outros players”, avalia Pedro Bramont, do BB. O contraveneno citado por ele faz referência ao Embedded Finance (finanças embedadas). 

Fogo cruzado 

O termo vai na contramão do beyond banking, com empresas de outros setores oferecendo serviços financeiros. A ideia do “banco do caminhoneiro” funciona aqui também. Mas o banco, no caso, pode ser montado pela fabricante de pneus. As marcas entram nesse mercado a partir de parcerias com fintechs, em razão das exigências legais do BC. O Banking as a Service (BaaS) é a plataforma por trás do processo. Por meio do BaaS, uma empresa loga seu sistema à interface de uma fintech ou de um banco para operar produtos financeiros diversos, como cartão de crédito, empréstimos ou pagamento de contas.  

O BaaS não pode ser visto apenas como ameaça aos bancos. Esse conceito também tem ajudado na aproximação com as fintechs. É uma relação ganha-ganha. De um lado, os bancos encontram muito mais agilidade. De outro, os novos players se aproveitam da solidez das estruturas tradicionais, pois enfrentam dificuldade para lidar com o arcabouço regulatório exigido pelo mercado. 

Ao longo do curso 

Outro tema ligado ao Open Finance é a regulamentação. Há um debate permanente sobre os limites da troca de dados entre as empresas participantes. Isso se refere, sobretudo, ao resguardo de informações sensíveis e estratégicas. A tendência é de que a regulação avance em paralelo ao amadurecimento do sistema. Ou seja, novos problemas vão exigir análises e soluções apropriadas. Também será importante captar benchmarkings em países que estão implementando o mesmo modelo, como Reino Unido, Austrália e EUA. Por ora, o Brasil tem se saído bem nesse quesito. “O BC não é exatamente inovador, mas um retardatário inteligente: primeiro acompanha o desenrolar dos fatos aqui e no exterior para depois entrar em cena com segurança”, definiu Fabio Lacerda, especialista em regulação e sócio da KPMG, durante um painel sobre o tema na Febraban Tech.  

A capacitação do cliente também está relacionada a essa pauta. Isso porque a regulação deve se tornar menos protecionista ao longo do tempo, à medida que o consumidor ganhe maior desenvoltura. “O usuário deve responder por suas ações e escolhas. Caberá ao regulador coibir fraudes e reger as instituições ofertantes com base no tipo de oferta e na qualidade da entrega”, defende Rodrigo Ubaldo, CEO da Monnos, fintech dedicada ao mercado de criptomoedas. Grandes poderes pressupõem grandes responsabilidades. 

Inputs por toda parte 

Internet das Coisas (IoT) e metaverso estão intimamente ligados. No futuro, essa dobradinha pode ajudar muito no beyond banking. A IoT conecta dispositivos digitais por meio de sensores e gadgets – desde alto-falantes até aquecedores. Tudo vira uma fonte de dados. A parceria com o metaverso representa uma ponte para jogar informações dentro da realidade simulada.  

Essa intersecção facilita a criação de cenários e hipóteses, com o intuito de experimentar como eventuais soluções reagiriam se fossem aplicadas na vida real. É o conceito por trás dos chamados “gêmeos digitais”. No caso do metaverso, os sensores ampliam a oferta de inputs sobre o comportamento do usuário.  

O processo pode ser muito útil para a elaboração de produtos em um cenário evoluído do Open Finance e do próprio metaverso. Foi assim que a fintech fictícia do início da matéria identificou o padrão de sono de Enzo, por exemplo. Segundo a empresa de pesquisa MarketsandMarket, o mercado global de gêmeos digitais deve valer US$ 63,5 bilhões em 2027. 

Guerra de superapps 

Em 2020, o Banco Inter tornou-se apenas Inter, um reposicionamento vinculado ao beyond banking. Hoje, a marca oferece serviços como o Doutor Inter, um sistema de marcação de consultas médicas pelo seu aplicativo. O exemplo mostra o quanto os apps financeiros devem se tornar ricos em funções nos próximos anos. É possível prever uma batalha de ecossistemas e de tecnologia, que dependerá do mix de ofertas, da assertividade e da segurança. “Vai ganhar quem tiver melhor usabilidade e qualidade”, disse Ray Chalub, COO do Inter, em conversa com a 20/30 durante a Febraban Tech. 

Rota de entrantes 

A longo prazo, o BaaS pode ser a porta de entrada para novos players se consolidarem no setor financeiro. Um exemplo é o Mercado Pago. Em 2016, a plataforma firmou parceria com o BMP para oferecer capital de giro aos vendedores do Mercado Livre. Hoje, converteu-se em uma fintech cuja carteira inclui desde portabilidade de salário até criptomoedas. O faturamento do Mercado Pago foi de US$ 773 milhões em 2021, representando 37% das entradas do marketplace argentino. A maior fatia (56%) veio do Brasil. 

Nem tão descentralizada 

A Web3 começa a ganhar corpo no embalo do blockchain e dos smart contracts. Mas a insegurança ainda a afasta do mundo real 

Outro conceito coligado ao metaverso é a Web3. Essa nova etapa da internet tem a descentralização como marca. Aqui, as interações deixam de ser mediadas por redes sociais e Big Techs. O fiador passa a ser o blockchain – uma criptografia inviolável que registra qualquer movimento de dados. Isso impacta o sistema financeiro. A garantia de idoneidade dada pelo blockchain, em tese, diminuiria a necessidade de um intermediador que atue como ente fiduciário. Daí surge o termo Finanças Descentralizadas (DeFi), um ambiente de negócios livre e pautado pela circulação de criptoativos.  

É relativamente fácil começar a operar na Web3. A rigor, não é uma rede paralela nem existe como espaço único. Tudo o que você precisa é adquirir uma carteira de moedas digitais e acessar um marketplace pelo seu navegador. Ali, você poderá comprar ativos, fazer investimentos ou tomar empréstimos. O problema é que, apesar de ágil, a Web3 guarda perigos. Não há legislação para as transações realizadas. Assim, o usuário pode sofrer golpes ou perder muito dinheiro em maus negócios.  

O diferencial do ambiente DeFi está na sua capacidade de gerar inovações em modelos financeiros. E isso desperta o interesse do setor tradicional. Entretanto, transferir soluções surgidas nesse mundo alternativo depende da regulação – algo que vai contra a premissa basal de autonomia da Web3. “É um trabalho hercúleo criar as novas leis e remodelar coisas que já existem para que possam operar dentro desse novo contexto”, confirma Maurício de Paula, do Ibevar. 

O caminho para as empresas é manter um mindest inovador e acompanhar de perto as soluções vindas de lá. Mesmo que a missão de criar elos entre o DeFi e a economia tradicional exija uma certa dose de coragem. “Os players mais arrojados darão os passos iniciais. Os demais virão na sequência”, acredita Rodrigo Ubaldo, da Monnos. Na prática, essa aproximação já pode ser notada por meio das NFTs. 

Eu vou tokenizar você 

Fungível diz respeito a algo que pode ser substituído por um similar. O NFT é a negação dessa ideia. Sua função é resguardar o valor pétreo de um ativo. Isso permite a distribuição de cópias ou frações digitais, sem prejuízo ao item original – daí o nome. “O NTF assegura que o artigo digital pertence ao usuário. Assim, passamos a ter uma maior noção de propriedade e escassez na internet”, analisa José Rodolfo Masiero, diretor de inovação do DB Lab, um studio de design digital. O boom dessa tecnologia aconteceu por volta de 2020, com a popularização da coleção de ilustrações digitais de macacos da Bored Ape Yacht. A partir dela, outras obras passaram a ser tokenizadas. 

Mais do que artigos virtuais, os NFTs podem ser um passaporte seguro para o DeFi. “O token quebra a barreira de entrada e tira esse preconceito de investimento de risco. É como se fosse o Cavalo de Troia da Web3”, brinca Leonardo de Carvalho, CEO da Nftfy, uma fintech especializada em comercializar frações de NFTs. Atualmente, já é possível utilizar tokens ou as suas partes como contrapartida em empréstimos de moeda corrente, por exemplo.  

É possível tokenizar os mais diversos artigos, como um objeto raro, o Cristo Redentor ou o estádio do Morumbi. O setor imobiliário está de olho nessa disrupção. Segundo o relatório da Security Token Market, o mercado mundial de imóveis tokenizados vale US$ 20 bilhões. O Brasil já tem seus cases: o primeiro partiu da construtora Sudoeste, responsável por lançar o projeto de um empreendimento 100% tokenizado para Minas Gerais em 2022. Já a startup de casas por assinatura Housi criou o ON Jardins em São Paulo, que dá cashback em tokens para quem investe em uma de suas unidades. 

A base da revolução  

O bitcoin é o termo mais conhecido quando se fala de criptoativos. Mas o grande fiador da Web3 é a Ethereum. Além de gerar a criptomoeda Ether, a plataforma possui um sistema de blockchain que permite a criação de produtos descentralizados por qualquer usuário. A lista inclui  app, tokens e criptomoedas.  

Outro item que deriva do Ethereum são os contratos inteligentes (smart contracts). Trata-se de códigos pré-programados, como se fossem gatilhos assegurados pela criptografia. Por exemplo: na hora de adquirir um carro, o comprador deve dar o dinheiro antes de receber o documento de transferência? Com um contrato inteligente, essa dúvida acaba. A cessão do bem fica vinculada ao blockchain. O documento é liberado assim que o dinheiro entrar na conta. Ou vice-versa. 

As criptomoedas são parte do debate entre os limites da Web3 e a realidade regulada. Uma das principais pautas refere-se à CDBC (sigla em inglês para Moeda Digital Emitida por Banco Central). A rigor, é uma tentativa de garantir lastro e segurança às criptomoedas, a partir de uma chancela governamental. Mais de 80 países estão desenvolvendo suas CDBCs. O BC vem trabalhando no projeto do Real Digital em parceria com instituições públicas e privadas. A moeda terá paridade com o Real tradicional e deve ser aceita em diferentes tipos de transação. Por ora, a perspectiva é de que chegue ao mercado em 2024. ao mercado em 2024. 

Universo D 

Além do DeFi, existem outros dois termos importantes para entender mais sobre a Web3: 

  • DAOs (Organizações Autônomas Descentralizadas): comunidades de usuários com regras próprias, definidas em consenso e sacramentadas em protocolos de blockchain. As DAOs são muito usadas para criação de novos tokens e criptomoedas. Em comum acordo, os investidores definem como os valores adquiridos com a eventual valorização dos criptoativos serão gerenciados. O bitcoin pode ser considerado a primeira DAO, pois surgiu com base em premissas semelhantes. 
  • Daaps (Aplicativos Descentralizados): os chamados aplicativos imparáveis. Conectam o usuário a algum serviço descentralizado, por meio do blockchain da Ethereum. Como são vedados e não possuem um intermediador, tornam-se imunes a vazamentos de dados e a censuras de governos e empresas. 

As três ondas 

  • Web 1.0: Criada no início dos anos 1990. Trazia websites estáticos, com informações unidirecionais. O usuário atuava como mero espectador. 
  • Web 2.0: Surge na virada do milênio. É o estágio em que a maior parte da web está. Marcada pela interação e pela produção de conteúdo por parte dos usuários em redes sociais e blogs. 
  • Web 3.0: Começa com o bitcoin, em 2008. Introduz a imersão e estimula a aproximação homem-máquina, além da descentralização das interações. 

O fator imprescindível 

Resolver o gap de capital humano qualificado em TI é fundamental para o setor financeiro dar conta dos desafios que terá pela frente 

Nada do que está exposto em termos de projeções do sistema financeiro e do metaverso irá ocorrer sem pessoas capacitadas para torná-las reais. E aqui chegamos a um dos principais gargalos dessa jornada. O Brasil, por exemplo, tem um déficit atual de 400 mil postos de trabalho em TI. Essa falta de mão de obra gera R$ 167 bilhões em perdas anuais, de acordo com a Softex, uma organização social voltada ao fomento da área de TI.  

A escassez de capital humano é generalizada. Nos EUA, existem 1 milhão de vagas abertas no setor de tecnolgoia. Por aqui, ainda há um agravante cultural ligado à capacitação. “Não é um país avesso à tecnologia, mas não entendemos a necessidade de investimento e formação na área”, critica Léo Xavier, cofundador da Môre, uma talent tech que busca dar suporte à transformação digital das empresas. Além disso, as empresas brasileiras não têm a mesma capacidade de importar talentos, devido à questão econômica e ao próprio idioma.  

O resultado disso é a intensa disputa pelos profissionais disponíveis no mercado, com uma escalada dos salários. “Esse jogo de rouba-montes é a tônica do mercado atual”, define Xavier. Uma das soluções passa pela formação interna, conduzida pelas empresas em parcerias com players do setor. O trunfo está em despertar o interesse de profissionais de outras áreas para as oportunidades no campo de TI, estimulando uma migração. É uma situação positiva para a empresa e também para o colaborador. A depender da sua experiência, ele pode iniciar em um emprego novo já em nível pleno.  

Melhorar o quadro do capital humano na área de tecnologia passa por uma abordagem de hélice tripla, que inclua governo, setor privado e universidades. Essa união de esforços é fundamental para garantir a competitividade em face do cenário global que se anuncia. 

Dança das cadeiras  

Cerca de 71% dos trabalhadores de TI têm intenção de sair de seus empregos atuais. É um dado mundial levantado pelo Gartner. Além disso, 65% deles consideram que a possibilidade de atuar em home office e no sistema híbrido pode pesar nessa decisão. 

5 profissões que surgem com o metaverso 

  • Metateller: É o storyteller do metaverso. Esse profissional irá criar narrativas para conduzir as experiências imersivas, combinando elementos de literatura, jornalismo, cinema, gameficação e design. 
  • Desenvolvedor de ecossistemas: Responsável por elaborar comunidades e ecossistemas dentro do metaverso. Deve combinar conhecimentos de RH, sociologia, marketing e negócios. 
  • Arquiteto do metaverso: A função do fictício Enzo. É quem irá estruturar o desenho dos ambientes simulados, misturando habilidades que incluem arquitetura, urbanismo e programação. 
  • Designer de avatar: O desenhista dos personagens do metaverso. É possível que ocorra uma segmentação nessa área, com alguns deles se dedicando apenas às roupas dos avatares, como fashionistas da simulação. 
  • Programador: O desenvolvedor será cada vez mais fundamental no processo rumo à imersão. Ele terá que aprender a conjugar tecnologias como realidade virtual, aumentada e mista para dar suporte à experiência. 

Longe do ideal 

Tecnologia, quórum e integração são os entraves do metaverso no caminho para a maturidade 

Open Finance, BaaS, DeFi. As pautas abordadas até aqui estão na frente do metaverso na fila do setor financeiro. E devem avançar em caminhos paralelos até chegarem a uma conversão no futuro. O próprio metaverso tem um bom chão pela frente. Não dá para negar que o frêmito em torno da realidade simulada arrefeceu um pouco ao final de 2022. 

O Decentraland ganhou os holofotes ao vender um terreno virtual por US$ 2,4 milhões em novembro de 2021. Um ano depois, a pauta é a baixa adesão de usuários. São cerca de 650 por dia, segundo o DaapRadar. No The Sandbox, há ainda menos: 522 por dia. Ambos os metaversos dão números maiores: 8 mil e 39 mil, respectivamente. Ainda assim, parece pouco para justificar tanto hype.  

Já o Horizon Worlds vem sofrendo críticas pelos bugs e por não reter usuários. Até a última atualização, os avatares não tinham pernas. Apareciam da cintura para cima, como fantasmas. Outro desafio será interligar metaversos, já que cada ambiente pertence a um dono e tem suas regras. “Talvez não exista vontade em solucionar isso, porque as grandes plataformas vão querer que as pessoas vivam, produzam e consumam somente dentro do seu ambiente”, adianta Masiero, da DB Lab.  

Mesmo com gargalos, o véu divisor dos mundos começou a ser rasgado. A imersão, ainda que incipiente, é uma realidade. Como diz Masiero, citando o escritor cyberpunk William Gibson: “O futuro já chegou. Só não está uniformemente distribuído”.  

Arsenal imersivo 

Os óculos 3D são a porta para a realidade imersiva completa. Selecionamos três opções de headsets para quem pretende começar a experimentar esse mergulho: 

Quest 2 

Fabricante: Oculus  

Tipo: Realidade Virtual 

Como funciona: utilizado pela Meta, é o modelo mais conhecido para o metaverso. Já vem com um hardware acoplado, dispensando outros aparelhos.  

Preço: R$ 3,5 mil 

PSVR 

Fabricante: Sony  

Tipo: Realidade Virtual 

Como funciona: bastante popular, é o capacete compatível com o Playstation. Já vendeu  mais de 5 milhões de unidades desde 2016. 

Preço: R$ 3,3 mil 

Valve Index 

Fabricante: Valve  

Tipo: Realidade Virtual 

Como funciona: outro headset com bastante êxito. Funciona acoplado a PCs. Faz sucesso pelo jogo Half-Life Alyx, considerado um dos melhores games 3D já produzidos. 

Preço: R$ 4,6 mil 

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